Amy Webb, uma das futurologistas mais respeitadas no mundo, lançou a 12ª edição do seu relatório anual das principais tendências tecnológicas no segundo dia do SXSW 2019. A professora de previsão estratégica na Stern School of Business da Universidade de Nova York e fundadora do Future Today Institute trouxe para o festival uma rápida degustação do estudo deste ano, com as tendências emergentes em ciência e tecnologia que influenciarão negócios, governos, educação, mídia e sociedade nos próximos anos. O relatório completo pode ser baixado aqui.

Para o público de SXSW, Amy foi a fundo em duas análises. A primeira correlaciona o setor de varejo de alimentos com tendências como engenharia genética, impressão 4D, plantações indoor e micro fazendas, como as que já existem na China e no Japão, onde a produção de hortaliças consome 40% menos energia, 99% menos água, com taxa de desperdício 80% menor e volume 100 vezes maior por metro quadrado em comparação às plantações tradicionais .

"Se considerarmos que a Amazon adquiriu a Whole Foods em 2017 e na semana passada lançou uma nova cadeia de supermercados, que a maioria das lojas da rede estão em áreas urbanas populosas e com grandes edifícios e que as compras online de alimentos devem dobrar nos próximos cinco anos, um cenário muito plausível é que os alimentos no futuro serão cultivados a partir de sementes criadas geneticamente em laboratório, em fazendas subterrâneas ou indoor nos supermercados da Amazon localizados no seu bairro", afirma Amy. E que riscos este cenário traria? O fim de grandes redes tradicionais de varejo, como a Walmart, e dos mercadinhos de bairro; o fim das fazendas tradicionais e das empresas que fazem o transporte dos alimentos das fazendas até as cidades; e crise para os grandes exportadores de grãos e carne, como o Brasil.

A segunda análise da futurologista é feita em cima da realidade que todos já sabemos: não existe mais privacidade. Nossa biometria vem sendo escaneada nos celulares, nas portarias, carros, aparelhos eletrodomésticos, simplificando nossa vida por meio de reconhecimento facial, de voz, impressão digital, íris ocular, frequência cardíaca e até nosso gestual, a cada lançamento de um novo device. O refinamento e a otimização dos nossos dados biológicos em tempo real ajudam sistemas de inteligência artificial a aprender, categorizar e reportar informações sobre nós, o tempo todo – os chamados Sistemas de Reconhecimento Persistentes. Isso levanta, segundo Amy Webb, questões sobre quem armazena e trata estes dados. "A quem pertencem suas informações biométricas? Você deve ter o direito de manter privacidade sobre suas emoções, estado mental e outros detalhes biométricos, fora do alcance dos Sistemas de Reconhecimento Persistentes? As corporações são capazes de usar todos estes dados de forma segura e ética? A quem pertence de fato o seu DNA? Você pode patentear o seu DNA para que ninguém o copie ou utilize? Se tecnicamente você não é o dono do seu DNA, então a quem pertence o seu corpo e tudo o que está nele? Questões como estas parecem saídas de filme de ficção científica, mas, segundo Webb, já teremos que enfrentá-las em 2034, com 10% de chance de um desfecho positivo, 50% neutro e 40% catastrófico. A responsabilidade, a ética e a transparência com que empresas, governos e sociedade tratarão o assunto determinará como essas tendências regerão nossa vida.